Discurso como orador da turma formanda em Pedagogia 2005.1
A tarefa de um educador, em certa medida, revela uma pretensão que pode ser um tanto desconfortável. Pois, que pretensão pode ser maior do que aquela que estabelece alguém como detentor da tarefa de guiar os homens para um estado de humanidade melhor? Que a tarefa de um educador se mostre difícil, pretensiosa ou, como afirmou Kant em sua obra Sobre a Pedagogia: “a mais difícil das tarefas humanas”, disso não se segue que a empresa pedagógica seja impossível. A possibilidade da educação encontra-se diretamente vinculada ao exercício crítico das condições de possibilidade da empresa pedagógica. Pois, de outro modo, ela não passaria de uma técnica medíocre estéril. Então, quais valores devemos defender ou ensinar? Os valores da minha crença privada, baseada em minhas experiências apenas, ou aqueles que elevando a minha consciência através da razão eu reconheço, como, por exemplo, a humanidade e a ideia de homem como um bem em si mesmo. Quais conteúdos devo priorizar, aqueles que adestrarão apenas, o meu aluno, ou aqueles que, além de formá-lo, possibilitarão que sua razão manifeste a plenitude daquilo que o identifica como ser humano? Aqui não faço apelo à educação do “senso comum” que, ao abrir as portas da sala de aula para qualquer espécie de conteúdo confunde o respeito às particularidades de certas classes sociais e movimentos sociais com a “pedagogia do achismo”. Que sucateiem nossas escolas e que vendam nossas universidades, mas que não transformem os educadores em apenas reprodutores daquilo que o “politicamente correto” ou o conservadorismo de direita ou de esquerda reza. Que respeitem o conhecimento baseado em visões de classe ou minorias, mas que não submetam a ciência, a episteme, à opinião, a doxa. Desse modo, o educador tem que estar livre de correntes que o prendam em solos que com o tempo cobrem, como pagamento, a limitação de sua visão de mundo. Mas, falando assim, parece que o educador tem que ser um “super-humano”, livre de se inclinar às tentações do mundo, dos valores que lhe parecem mais dignos de serem defendidos. Mas, os homens não são “super-humanos” e, agir assim seria negar aquilo que os identifica como tais, isto é, a condição humana. Nessa medida, uma vez que o problema de educar é precedido por um problema ainda maior que é: o que devemos ser ou o que podemos ser? Parece-me, honestamente, que conseguimos identificar o que torna a empresa pedagógica tão difícil. O educador não deve se furtar o dever de criticar sua prática cotidianamente, de se colocar como em um tribunal se perguntando “kantianamente” o que posso saber? O que devo fazer? E, o que posso esperar? Ele é um mestre sim! Que sabe algo e que deve ter a consciência do seu poder de apresentar conhecimentos. Ele não é pastor, pois esses lidam bem com ovelhas, mas essas, coitadas, não podem mudar nada durante a sua existência. O educador deve ter a consciência do mundo, mas não deve, como Atlas, ser obrigado a carregá-lo, deve compreendê-lo, acolhê-lo, modificá-lo dentro de suas possibilidades, acima de tudo, deve pensá-lo. E aqui encerro a minha fala tomando a liberdade de trazer Fernando Pessoa
Pensar incomoda, como andar a chuva...
Quando o vento cresce...
E parece que chove mais...
Thiago Fonseca

