10.28.2009

Discurso como orador da turma formanda em Pedagogia 2005.1

A tarefa de um educador, em certa medida, revela uma pretensão que pode ser um tanto desconfortável. Pois, que pretensão pode ser maior do que aquela que estabelece alguém como detentor da tarefa de guiar os homens para um estado de humanidade melhor? Que a tarefa de um educador se mostre difícil, pretensiosa ou, como afirmou Kant em sua obra Sobre a Pedagogia: “a mais difícil das tarefas humanas”, disso não se segue que a empresa pedagógica seja impossível. A possibilidade da educação encontra-se diretamente vinculada ao exercício crítico das condições de possibilidade da empresa pedagógica. Pois, de outro modo, ela não passaria de uma técnica medíocre estéril. Então, quais valores devemos defender ou ensinar? Os valores da minha crença privada, baseada em minhas experiências apenas, ou aqueles que elevando a minha consciência através da razão eu reconheço, como, por exemplo, a humanidade e a ideia de homem como um bem em si mesmo. Quais conteúdos devo priorizar, aqueles que adestrarão apenas, o meu aluno, ou aqueles que, além de formá-lo, possibilitarão que sua razão manifeste a plenitude daquilo que o identifica como ser humano? Aqui não faço apelo à educação do “senso comum” que, ao abrir as portas da sala de aula para qualquer espécie de conteúdo confunde o respeito às particularidades de certas classes sociais e movimentos sociais com a “pedagogia do achismo”. Que sucateiem nossas escolas e que vendam nossas universidades, mas que não transformem os educadores em apenas reprodutores daquilo que o “politicamente correto” ou o conservadorismo de direita ou de esquerda reza. Que respeitem o conhecimento baseado em visões de classe ou minorias, mas que não submetam a ciência, a episteme, à opinião, a doxa. Desse modo, o educador tem que estar livre de correntes que o prendam em solos que com o tempo cobrem, como pagamento, a limitação de sua visão de mundo. Mas, falando assim, parece que o educador tem que ser um “super-humano”, livre de se inclinar às tentações do mundo, dos valores que lhe parecem mais dignos de serem defendidos. Mas, os homens não são “super-humanos” e, agir assim seria negar aquilo que os identifica como tais, isto é, a condição humana. Nessa medida, uma vez que o problema de educar é precedido por um problema ainda maior que é: o que devemos ser ou o que podemos ser? Parece-me, honestamente, que conseguimos identificar o que torna a empresa pedagógica tão difícil. O educador não deve se furtar o dever de criticar sua prática cotidianamente, de se colocar como em um tribunal se perguntando “kantianamente” o que posso saber? O que devo fazer? E, o que posso esperar? Ele é um mestre sim! Que sabe algo e que deve ter a consciência do seu poder de apresentar conhecimentos. Ele não é pastor, pois esses lidam bem com ovelhas, mas essas, coitadas, não podem mudar nada durante a sua existência. O educador deve ter a consciência do mundo, mas não deve, como Atlas, ser obrigado a carregá-lo, deve compreendê-lo, acolhê-lo, modificá-lo dentro de suas possibilidades, acima de tudo, deve pensá-lo. E aqui encerro a minha fala tomando a liberdade de trazer Fernando Pessoa em O Guardador de Rebanhos para ilustrar a doce dor do pensar:

Pensar incomoda, como andar a chuva...

Quando o vento cresce...

E parece que chove mais...

Thiago Fonseca

9.23.2009

O Homem do Cigarro

Ele colocou o primeiro cigarro da carteira nos lábios. O pouco de saliva no lábio inferior fez o cigarro grudar na boca como se fosse fita adesiva. Ali parado o cigarro ficou por um tempo apagado, até que as mãos que guardavam a carteira retornavam para a boca trazendo a chama de mais um isqueiro vagabundo. Acende e eis o início do dia. Um, dois, três cigarros. Anda, anda, anda. Da voltas e voltas. Para, para, para. O excesso de nicotina no corpo incorpora as vestes, os pêlos, o cheiro cutâneo que todo ser, até mesmo o mais desprezível deles, possui. Sua cabeça pesa tanto que pende em direção ao chão durante toda a sua estadia no pátio da fumaça. A bermuda jeans surrada, quase branca, alcança o joelho. A blusa branca, com aparência de confortável e velha parece pender num cabide de osso e carne. A mulher, um exemplar extraordinariamente curioso, se apresenta como elemento absolutamente antagônico em relação ao “homem do cigarro”. Ela é tão visivelmente “a parte” que o “homem do cigarro”, quando a vê, não se surpreende com a distância nem com o excesso de diferença. A mulher é “a parte” e o “homem do cigarro” possui sua “parte” na história. A barba do “homem do cigarro” possui característica peculiar. Meio sem fazer, mal feita, cinza e branca. A sua dentição também exibe um amarelado mais visível em alguns dentes próximos aos caninos, tártaro, talvez. Um, dois, três cigarros. Anda, anda, anda. Da voltas e voltas. Para, para, para. O “homem do cigarro” é comentarista, da palpites sobre administração, sobre música, sobre o calor da cidade, sobre todas as coisas que as pessoas insistem em falar no elevador. E no final das contas ele até tem um fragmento de razão, mesmo que seja no pior dos mundos possíveis. O “homem do cigarro” fumava onde queria ou fuma onde quer, não sei ao certo. Ele parece estar ansioso por algo. Um anseio acalentado por cada “calorzinho” sentido na mucosa da garganta quando inala fumaça preta. Cinza, para ser eufêmico. Que personagem curioso... “homem do cigarro”, ânsia de quê!? Que a vida fosse diferente; que sua mulher lhe cumprimentasse toda manhã, mesmo que como um ritual cego; que as pessoas dessem ouvidos aos seus comentários e você deixasse de ser um coadjuvante dos momentos insignificantes das pessoas; o que faria com um pouco de atenção? A porta do elevador bate. O “homem do cigarro” sobe para sua casa. Logo, o “homem do cigarro” está de volta, dando voltas, no mundo que, dando voltas, vira-mundo.


Thiago Fonseca


Apenas um personagem e minhas impressões, dos milhares de personagens que vejo cotidianamente...

8.10.2009

A Torre de Kaspar Hauser

[Kaspar Hauser]- Isto é muito alto...

[Kaspar Hauser]- Só um homem muito grande poderia ter construído isso.

[Kaspar Hauser]- Eu gostaria muito de conhecê-lo

[Old Man]- Não, Kaspar. Não é preciso ser tão grande para construí-la, pois existem andaimes.


Filme: The Enigma of Kaspar Hauser

Diretor: Werner Herzog


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Ah... as vezes a inocência soa como alívio!

Como se retornássemos para um estado de coisas de leveza invejável...

No qual a ignorância soa como grandeza...

E a face encosta no travesseiro levemente...

Mas tudo isso é ilusão...



Thiago Fonseca

6.09.2009

Aos gentis amigos!!!

Antes de tudo: MUITO OBRIGADO SEMPRE. Eu escrevo para todos aqueles que possuem interesse em ler o que penso sobre o mundo, mas, principalmente, para todos os meus amigos que acompanham esse blog diariamente. Para mim, isso é uma honra de total grandeza e somente aqueles que conhecem a minha amizade e amor para com os meus amigos sabem o quanto valorizo os comentários e PRINCIPALMENTE, o fato deles lerem e pensarem comigo algumas coisas! Amo vocês e bola pra frente!


Thiago Fonseca

6.03.2009

Ler é descascar

Depois de um post meio esquisito como o último, irei me ater a algo muito agradável desta vez.

Certa feita, meu orientador comentou com nós, alunos de sua matéria História da Filosofia Moderna II, na UFBA, que um texto de filosofia é como uma cebola. Ele possui camadas, rugosidades, sabor, uns mais fortes outros completamente amargos, mas todos, sem dúvida, carregam em seu bojo a riqueza argumentativa que todo grande texto de filosofia tem. Eu, certamente, estou inclinado a pensar que tal comparação pode ser feita com toda e qualquer manifestãção humana, seja ela literária ou gráfica ou musical, enfim, seja ela criação significativa fundada em bases racionais, em estruturas argumentativas ou em expressões meramente psicológicas de predileções subjetivas. Um leitor apressado, impaciente, percorre o que está lendo apenas decodificando sinais linguísticos com velocidade tal que, na maioria das vezes, se perde a "nervura", como diria Marilena Chauí, a tecitura que o texto possui e que é a fonte da riqueza do mesmo. Se nos propomos o desafio de saborear o que se lê, enquanto manifestação artística, devemos estar preparados para um olhar mais do que decodificador, isto é, um olhar depurador, que separa "grosserias" do texto, impurezas, que acolhe com inteligência o que está sendo apresentado. Aliás, a palavra inteligência vem do Latim e significa "ler dentro". Então, ler com inteligência é "ler dentro" da alma de quem produz a manifestação de um significado. Assim como um leitor apressado, um ouvinte apressado que escuta uma canção de maneira descompromissada dificilmente sentirá a força significativa que uma canção carrega. Isto se pensarmos uma música como uma riqueza sonora quase que impossível de se estabelecer limites para sua totalidade semântica. Assim, um ouvinte apressado exercita seu senso comum a partir de meras comparações do tipo: "Ah, isso se parece com tal outra banda!" ou "Ah, isso é tal estilo de música". De fato, a capacidade de "descascar cebolas" só se ganha com o tempo. E o pior de tudo, a estrutura da vida contemporânea não nos favorece em nenhuma instância a possibilidade de uma relação inteligente para com qualquer produção humana. O descarregar excessivo de informações sobre nossas mentes diariamente, relega-nos a um estado no qual lemos muito pouco o mundo. Não lemos, consumimos, o que é de uma diferença absurda. O consumo é desgaste; é uso desenfreado ou pragmático de algo, enquanto ler é "ler dentro", saborear o que está sendo construido percorrendo os experimentos de pensamento que o autor cristaliza na obra. Por isso, considero que toda leitura supercial é irresponsável, uma falta de compromisso para com a dimensão do belo e do sublime de uma manifestação artística. "Ler dentro" não é um mero devaneio ou deleite intelectual reservado para poucos, não mesmo. "Ler dentro" é ouvir o outro, é desenvolver a faculdade de ouvir, de receber informações, para aprendermos finalmente a depurar o que nos é dado. Se o mundo está dado, entendendo o mesmo como uma infinidade de representações de qualidades também infinitas, cabe a nós desenvolver o hábito de depurar aquilo que nos é dado. Somos responsáveis pelo que lemos, ouvimos, fazemos e todos os demais verbos, e apenas a preguiça pode nos levar à prisão da incompetência, do senso comum, da cultura de massa e da cultura dita erudita. Como diria Kant, somos responsáveis pela nossa mediocridade e é muito mais fácil delegar a alguém a tarefa de nos entregar tudo pronto. Portanto, o exercício de "descascar cebolas" é, também, um compromisso moral para com o desenvolvimento de nossas faculdades, na medida em que supõe um leitor em processo de esclarecimento e de atualização de todas as suas potencialidades como compromisso para com o outro e para si mesmo.

Sapere aude! (Latim: ouse saber!)


Thiago Fonseca


5.24.2009

A doença da alma, a decadência do ser.

A doença é a decadência do homem. O homem, esse bolo de carne e pensamentos é humilhado pela natureza ao adoecer. Na verdade, o homem é o câncer da natureza, é a secreção de tudo que não presta que a natureza criou, mas, por agora, esses são outros quinhentos. As doenças da alma são tão mais deprimentes do que as doenças do corpo. Isto, se pensarmos em uma escala absurda de gradações de decadência do ser. Treme as mãos, treme os lábios, treme o corpo. Envergonha-se quem ver, envergonha-se quem vivencia ao lado, por não poder fazer nada ou por vergonha em si mesma. O homem é um ser carente; carente de sentido; que constrói significados para preencher um vazio imanente, um vazio que me soa natural, no sentido mais rousseauniano* possível. Não há o belo ou sublime na vida, o que existe é um constante fugir do vazio. Tentamos ser tão corajosos, em tantas medidas, para podermos escapar desse vazio que é o ser largado em si mesmo. Não existe sentido nenhum. Achar a vida bela, maravilhosa é estar ofuscado pela negação da desgraça, pela negação da chamada “realidade” crua, vil, que se manifesta em egoísmos, egocentrismos, oportunismos, corporativismos, intelectualismos e tantos “ismos” que poderíamos compor um dicionário inteiro. A vida só é bela por comparação. A minha vida é mais bela em relação a alguém que passa frio e fome. Mas a vida não é mais maravilhosa pra mim por isso. A vida é uma desgraça, é decadência e números podem convencer com muito menos esforço retórico do que eu neste momento. Só há o belo por comparação, não há o belo em si em nenhum aspecto da existência humana. Assim como só há o conforto por comparação e não em si mesmo. E nos dopamos como podemos. Uns tomam remédio, outros costuram um sorriso no rosto recheado de religiosidade vagabunda, outros caminham para templos de adoração, outros se enchem de leituras achando que vão ser melhores pessoas, outros não fazem absolutamente nada e se dopam tanto quanto os que se entopem de substancias lícitas e ilícitas e outros, como eu, acordam todos os dias e fazem tudo sempre igual, acordam, tomam café, tomam banho, escovam os dentes, põem a mochila nas costas e vão se dopar de mundo. Sou corajoso. Peito um vazio gigante. O meu vazio. Mas me resta a dignidade de poder continuar pensando e escrevendo coisas que incomodam pessoas, agradam pessoas, enfim, tocam as pessoas. Sou decadência, sou humano, sou alguém que sente e que não desiste da vida por nada nesse mundo. Se é pra viver nessa guerra, que me esperem armado como posso, que me deem uma espada e um escudo ou um lápis e um bloquinho de notas.

Thiago Fonseca

*= típico do pensamento de Rousseau.

5.12.2009

Eu "tô" cheio de opinião esses dias!

Um blog é a maior expressão do narcizismo de uma pessoa que escreve. Escrevemos porque queremos, entre tantas coisas, que as pessoas comentem, que leiam, que detestem, que falem mal, que falem bem, que não falem, que pensem, enfim, "so many things...". Mas, o mais legal é que as nossas pessoas mais próximas podem acompanhar os delírios cerebrais que passam na cabeça dos blogueiros. Mas isso é apenas uma nota, não irei escrever sobre escrever em blogs. Eu ando cheio de opinião. E isso não é ruim, eu até me divirto, confesso. Outrora estava eu indo desligar a televisão da minha sala, a qual minha mãe deixou ligada antes de ir se deitar, quando me deparo com uma novela global passando. Atire a primeira pedra quem nunca acompanhou uma novela. Eu já acompanhei quando era mais novo, e não ousem perguntar quais foram porque vocês deixariam de dar crédito às simplicidades que eu escrevo nesse blog. Acontece que algo é chocante: a mesma receita de bolo, os mesmos temas se repetem sucessivamente dopando as mentes das pessoas. A novela é a aspirina do pobre, da classe média e das pessoas ricas que não tem saco pra fazer outra coisa depois do jornal. Mas um ponto me chamou a atenção. Ao ver uma personagem se contorcendo de vontade de falar com seu amor proibido me veio a mente algumas coisas negativas. O amor tem sido passado como uma doença nas novelas, no cinema etc. Parece que as pessoas não tem mais nada em suas vidas do que essa busca doentia pelo outro, que, bastando acrescentar alguns obstáculos entre o sujeito e o objeto amado, fazem-se amontoados estéreis de produções. O romantismo fez mal a nossa sociedade. O mundo não é amor. A vida não deve ser uma busca pela completude do amor a partir da negação da realidade. O amor se transformou em um produto, em uma ideologia, todos tem que amar porque o legal é está dopado pelo amor. As produções passam o amor como a única função da vida, como se amar não fosse apenas uma dimensão de nossa existência. Assim, colocam amor até no sexo. Veja qualquer filme romântico, até na cama tudo começa com rosas e música e beijos suaves. Tenha santa paciência. Sexo é sexo. Melhor fazer com quem você ama, mas é sexo, é carne, é tato. Me perdoem a franqueza. Há um descompasso entre o sentido do amor e o do sexo. Eu sou meio platônico quanto ao sentido do amor, o que em poucas palavras quer dizer: somos incompletos, pois a nossa existência é um mero reflexo distorcido do mundo das formas (ideias) e passamos nossas vidas tentando buscar no outro o que nos falta em nossa própria "forma", devendo ser guiado por eros, entidade encarregada em elevar as almas dos amantes a um certo patamar da existência. E quanto ao sexo, bem, como disse anteriormente: é sexo! O fato é que, quando afirmo que o amor se transformou em uma ideologia eu falo no sentido marxista de ideologia que quer dizer, também em poucas palavras: inversão da realidade, distorção da realidade. Quero dizer, existe o sentimento de amor inerente em muitas pessoas, mas, certos produtos vendidos à nós fazem com que esse sentimento seja tomado como algo que ele não é, por exemplo, o fim de todas as coisas, como se vivendo APENAS e SOMENTE em função do amor a vida ganha sentido. E afinal, o que fizeram com o amor? relegaram o amor a uma função hipnótica socialmente falando, culturalmente falando e principalmente televisivamente falando. Mas, as revistas também não estão longe disso. Veja uma dessas revistas para garotas novinhas tipo Capricho. É vendido para as garotas um sonho, uma ideia de que existe o cara perfeito, o cara certo, o amor certo para ai, ter o sexo certo. Depois muitas se enchem de culpa por não se "enquadrarem", como se já não bastasse o catolicismo impregnando nossas vidas com o sentimento mais covarde que podem inculcar em um povo: CULPA. Eu fico com o realismo de Eça de Queirós, quem leu o Primo Basílio sabe do que eu estou falando. Não quero dizer aqui que estou pregando o FIM DO AMOR. Não, de forma alguma. O que observo é que não está se falando de amor quando entro em certos blogs femininos e vejo pessoas fazendo poesias falando como se o mundo se resumisse àquilo ou quando vejo novelas nas quais todos os personagens podem ser resumidos a uma busca constante pelo par que só vai ser formado no último episódio e que termina com casamento. Se amor é entrar nessa novela da distorção da realidade, então eu amo gente pra caramba, amo até os insetos, os ladrões, tudo é amor. Amor, pra mim começa com respeito e carinho, e isso não deve ser o fim de todas as coisas, mas sim, o início delas.


Thiago Fonseca